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Onde a Luz Encontra o Mistério

  • 10 de ago.
  • 3 min de leitura

Esta reflexão nasceu na ilha de Delos.


Enquanto orientava um retiro na vizinha ilha de Mykonos, a única viagem que fizemos para além do espaço da nossa prática foi uma peregrinação por mar até esta terra sagrada. Caminhámos em silêncio entre as pedras antigas, permitindo que o mito se revelasse através da paisagem, em vez das páginas de um livro. O calor do sol, a força indomável do mar Egeu, o sal sobre a pele e o silêncio que habita aquelas ruínas fizeram-me compreender porque existem lugares que continuam a falar connosco através dos séculos.


Foi ali que comecei a contemplar não apenas o nascimento dos gémeos divinos, mas o mistério de todos os limiares que atravessamos ao longo da vida. Foi ali que a semente deste ritual foi plantada.


Conta a mitologia grega que Leto vagueou pela Terra em busca de um lugar onde pudesse dar à luz os seus filhos. Temendo a maldição de Hera, nenhuma terra a acolhia. Apenas Delos, então uma ilha flutuante e livre de qualquer domínio, lhe ofereceu refúgio. Foi ali que nasceu Ártemis e, pouco depois, ajudou a trazer ao mundo o seu irmão gémeo, Apolo. Uma nasce do mistério da escuridão; o outro manifesta a luz da consciência. Mais tarde, Delos tornou-se tão sagrada que nem o nascimento nem a morte eram permitidos nas suas margens, tornando-se símbolo do espaço liminar entre mundos. Talvez este mito nos recorde que aquilo a que chamamos morte não é o oposto da vida, mas uma outra expressão do mesmo movimento eterno.


Uma compreensão semelhante vive na tradição tibetana, onde os quarenta dias após a morte são contemplados como uma passagem sagrada durante a qual a consciência vai libertando, gradualmente, a sua identificação com o mundo físico. Inspirada por estas duas tradições, nasceu Quarenta Dias de Luz: um ritual simples, sustentado por quarenta velas, que nos convida a acompanhar o luto com presença em vez de resistência.


Cada chama honra um fio invisível que nos liga àqueles que amamos. Alguns desses fios nascem da necessidade de proteger. Outros da paixão, do amor, das palavras que ficaram por dizer, dos sonhos que já não serão vividos em conjunto, da gratidão, do perdão ou do desejo de um último abraço. Uns pertencem à raiz que procura segurança; outros às águas da intimidade e da relação. Alguns habitam o coração através da compaixão e do amor incondicional. Outros permanecem na garganta, nas conversas inacabadas; no terceiro olho, nas visões de um futuro que já não acontecerá; ou na coroa, através da serena compreensão de que todo o sofrimento encontra, um dia, o seu repouso e regressa ao Todo. Tal como estes fios se manifestam no corpo, podem também ser contemplados através da linguagem simbólica dos chakras, revelando diferentes expressões do amor, do apego e da memória.


O luto não pede que seja apressado nem resolvido. Pede apenas que seja testemunhado. O ritual oferece ao coração uma linguagem quando as palavras deixam de ser suficientes. Regressar todos os dias à presença silenciosa de uma única vela permite que a dor se mova em vez de endurecer, que a memória e o desapego coexistam, e que cultivemos uma relação íntima com um dos maiores mistérios da existência. Não acendemos a chama para esquecer quem partiu. Acendemo-la para honrar o amor que permanece, permitindo-lhe encontrar uma nova forma de existir. Cada vela torna-se um pequeno nascer do sol, recordando-nos que, enquanto o corpo regressa à Terra, cada gesto de amor continua a sua viagem em direção à luz.


Esta reflexão é profundamente pessoal, porque não nasce de uma ideia abstrata. No final de cada prática de yoga, enquanto repouso em Śavāsana, a postura que nos convida a ensaiar a entrega antes de regressarmos à vida, recordo frequentemente uma pergunta que o meu marido me fez um dia:


"Se fosses tu a partir primeiro, o que gostarias que eu e o Micael fizéssemos?"


Essa pergunta vive silenciosamente ao lado de outra que orienta os meus dias | Como posso preencher a vida daqueles que amo com tanta presença, ternura e luz que, quando esse inevitável limiar chegar, o amor saiba continuar sem a minha forma?


É por isso que os rituais transcendem o tempo. São gestos simbólicos através dos quais a alma encontra uma linguagem para aquilo que a mente nunca conseguirá compreender por inteiro. Ao dar forma ao invisível, permitem-nos participar conscientemente no eterno movimento de dissolução, memória e devir.


Com esta reflexão partilho também o ritual Quarenta Dias de Luz, uma meditação simples com velas criada para acompanhar o luto com presença, reverência e amor. Que possa servir de companhia gentil a todos aqueles que descobrem que deixar partir não é o oposto de amar, mas uma das suas expressões mais sagradas.



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