Viver Entre Mundos
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A ferida e o campo | Set & Setting
A água nunca discute com apaisagem. Recebe-a. Entrega-se-lhe. Recorda-a.
Quanto mais me dedico aeste caminho, menos acredito que a cura alguma vez tenha pertencido apenas aoindivíduo. Falamos frequentemente das nossas feridas como se fossem territóriosprivados, ocultos sob a superfície da pele, à espera da revelação certa, doremédio certo ou do mestre certo que finalmente as venha libertar. No entanto,os anos foram suavizando essa crença. Mostraram-me que nada verdadeiramente secura em isolamento. Toda a transformação acontece em relação. Não apenas narelação connosco próprios, mas também com o campo invisível que silenciosamentenos envolve, nos acolhe e ensina a nossa natureza mais profunda a encontrarexpressão.
No contexto da facilitaçãopsicadélica, estas duas dimensões são frequentemente descritas como Sete Setting. O Set representa a paisagem interior que levamosconnosco para cada experiência: as memórias gravadas nos nossos tecidos, ascrenças moldadas pelos nossos antepassados, os anseios, os medos, asexpectativas e as inúmeras impressões que se instalam no sistema nervoso muitoantes de se tornarem pensamento consciente. O Setting refere-se aocampo que nos recebe: a qualidade da presença, as relações que nos rodeiam, aatmosfera, os ritmos, os sons, o subtil sentimento de segurança que permite àpsique abrir-se em vez de permanecer em defesa. Falamos, muitas vezes,destas duas dimensões como se fossem pilares independentes. A vida mostrou-meoutra realidade. Todo o Setting acaba, inevitavelmente, por se tornaro nosso Set. A casa que nos acolheu emcrianças transforma-se na forma como compreendemos o pertença. O silêncio dasnossas manhãs torna-se o tom do nosso diálogo interior. As florestas e aspráticas que nos ensinaram a respirar continuam vivas na cadência do nosso sistemanervoso. As cidades que nos exigiram resiliência tornam-se os músculos com queaprendemos a enfrentar a incerteza. Cada abraço, cada ausência, cada gesto deternura ou de rejeição penetra lentamente no corpo até deixar de existir apenasà nossa volta. Passa a existir dentro de nós. Imaginamos que somos nós quematravessa os lugares. Na verdade, são também os lugares que nos atravessam.
Sob o limiar daconsciência, o corpo permanece constantemente à escuta. Cada expressão no rostode quem nos encontra, cada divisão familiar, cada estação de abundância ou deincerteza, cada fragrância transportada pelo vento é silenciosamenteinterpretada por uma inteligência que coloca apenas uma pergunta | Seráque estou suficientemente seguro para permanecer aberto?
A homeostase é muito maisdo que um mecanismo fisiológico. É a conversa permanente do corpo com o mundo.Milhões de adaptações invisíveis acontecem a cada instante, regulando arespiração, o ritmo cardíaco, as hormonas, a imunidade, a postura, a percepção,a emoção e a memória. Muito antes de aprendermos a linguagem, muito antes de amemória se transformar em narrativa, o corpo já aprendeu a relacionar-se. Jádescobriu quais os momentos que convidam à expansão e quais exigem protecção. Estas adaptaçõessilenciosas tornam-se os nossos hábitos. O nosso temperamento. As nossasexpectativas. A forma como amamos. A forma como tememos. O corpo recorda muitoantes de a mente compreender.
Posso partilhar convosco uma história damitologia grega que ilustra precisamente isto? Quíron e Cariclo. A Históriarecorda Quíron como o Curador Ferido, o sábio centauro que orientou heróis,artistas e buscadores. A sua grandeza nunca nasceu da fuga ao sofrimento, masda profunda intimidade que estabeleceu com ele. Foi permanecendo junto da suaprópria ferida que cultivou discernimento, compaixão, paciência e a compreensãode que a sabedoria raramente nasce da certeza. Ela floresce da relação comaquilo que se recusa a desaparecer. Mas, silenciosamente ao seu lado,encontra-se uma figura cuja presença sempre me fascinou ainda mais. Cariclo. A mitologia dizsurpreendentemente pouco sobre ela. Talvez porque a verdadeira presençararamente precise de anunciar-se. Cariclo, ninfa das nascentes sagradas e daságuas correntes, representa algo muito maior do que a companheira de Quíron.Ela é o próprio campo vivo. A inteligência receptiva através da qual atransformação se torna possível. A sua medicina não consiste em remover a dor,mas em criar as condições para que a dor deixe de permanecer isolada. Elarecorda-nos que aquilo que sustenta a vida é, quase sempre, invisível. A água corre sob asuperfície. As raízes crescem na escuridão. E o inconsciente moldasilenciosamente a consciência muito antes de esta aprender a reconhecer-se.
Há uma história queregressa continuamente à minha memória. Cariclo era mãe de Tirésias, o jovemque, ao vaguear pela floresta, encontrou inadvertidamente Atena enquanto estase banhava numa das suas fontes sagradas. Vinculada às leis divinas, a deusacegou-o. Cariclo, tomada pela dor, implorou-lhe que devolvesse a visão aofilho. Mas há experiências que não podem simplesmente ser desfeitas. Atena nãopodia restituir-lhe aquilo que havia sido perdido. Em vez disso, ofereceu-lheuma outra forma de visão. Tirésias nunca mais contemplaria o mundo visível damesma maneira. Em contrapartida, passaria a perceber aquilo que os olhos comunsnão conseguem alcançar. Tornar-se-ia o grande vidente, capaz de escutar ascorrentes invisíveis que percorrem a realidade para lá das aparências.
Ao longo dos anos, tenho-meperguntado se este mito não foi, muitas vezes, mal compreendido. Talvez nuncatenha sido uma história sobre castigo. Talvez seja, acima de tudo, uma históriasobre percepção. Há formas de ver que apenas se revelam quando deixamos deinsistir que a vida regresse àquilo que foi. Quando aceitamos a experiência,amadurecemos através dela e assumimos a responsabilidade pela liberdade que elanos pede. É nesse momento que o sofrimento deixa de ser apenas uma perda e setransforma num novo órgão de percepção.
À medida que aprofundo oestudo da psique e continuo fascinada pela forma como diferentes tradiçõesprocuram compreender o mistério da consciência, encontro-me repetidamentediante da mesma revelação: linguagens diferentes chegam, vezes sem conta, aomesmo limiar. O mito deu rosto a estasforças. A ciência descreve-lhes os mecanismos. Onde a mitologia nos fala deQuíron e Cariclo, a biologia fala-nos de genética e epigenética. Durante muitotempo imaginámos o ADN como um guião já escrito, um destino praticamenteimutável. Contudo, quanto mais compreendemos o corpo, mais percebemos que cadacélula permanece em escuta. Os genes transportam possibilidades, mas essaspossibilidades aguardam constantemente uma relação para se expressarem. Luz esombra, nutrição e privação, segurança e ameaça, afecto e abandono, movimento erepouso tornam-se diálogos subtis que influenciam a forma como a nossa biologiase manifesta.
A herança nunca conta ahistória completa. O campo participa. O ambiente participa. A vida participa. Ocorpo não está apenas a adaptar-se para sobreviver. Está continuamente aaprender como pertencer. Talvez seja por isso que o mundo vivo sempre mepareceu menos um conjunto de recursos e mais uma família. Talvez a minha Lua emCaranguejo tenha alguma responsabilidade nessa forma de sentir. Muito antes denos chamarmos humanos, pertencíamos ao reino mineral, vegetal e animal. Aevolução não apagou essas linhagens; reuniu-as em nós. A natureza continua arecordar-se de si própria através da nossa existência.
Foi esta compreensão quetransformou profundamente a minha relação com as plantas. Uma decocção deixoude ser apenas química. Um óleo essencial deixou de ser apenas aroma. Umatintura ou uma essência floral deixaram de ser apenas um gesto simbólico. Cadauma delas passou a representar um reencontro. Um acto de reconhecimento. Umaconversa silenciosa com algo que o corpo já conhecia muito antes da mente lheatribuir um significado. Sempre que preparamos uma infusão, inalamos asmoléculas aromáticas de uma flor, aplicamos um óleo sobre a pele, tomamos umatintura ou caminhamos por uma floresta com presença suficiente para escutar oseu ritmo, entramos novamente no mesmo diálogo que sustenta a vida há milhõesde anos. Não estamos a introduzir algo estranho em nós. Estamos a despertar umaintimidade ancestral que nunca desapareceu verdadeiramente. O sistema olfactivoconduz-nos directamente ao sistema límbico, onde habitam a memória, o vínculo,a emoção e o sentido de pertença. Antes de a linguagem interpretar umaexperiência, o corpo já reconheceu algo familiar.
Quantas vezes acreditamosque a cura acontece porque finalmente compreendemos? E, no entanto, tantasoutras vezes ela acontece porque o corpo simplesmente se lembra.
Talvez seja isto queCariclo sempre nos tenha sussurrado. A presença não é passiva. A presença ébiológica. A presença reorganiza o sistema nervoso. A presença transforma aforma como a memória é sustentada. A presença torna-se o ambiente a partir doqual novas possibilidades começam, silenciosamente, a germinar. E, pouco apouco, sem nunca anunciar a sua chegada, o campo de hoje transforma-se naherança de amanhã. O Setting de hoje torna-se o Set deamanhã.
Quando olho para o meupróprio percurso, apercebo-me de que me recordo menos de uma sucessão deconquistas e muito mais de uma sucessão de paisagens. Recordo-me dos yoga shalas que me ensinaram a devoção muitoantes de me ensinarem as posturas. Das florestas cujo silêncio alterou o ritmoda minha respiração. Dos professores que expandiram a minha compreensão edaqueles que desafiaram todas as certezas que julgava possuir. Das cerimóniasque dissolveram as fronteiras entre o visível e o invisível. Das conversas que,sem alarde, reorganizaram a arquitectura do meu coração.Sem me aperceber, nuncaestive apenas a acumular conhecimento. Estive a reunir campos. Cada um deleseducou o meu sistema nervoso. Alguns convidaram-me à expansão. Outros revelaramos lugares onde ainda me contraía. Alguns fizeram-me sentir em casa desde oprimeiro instante. Outros só muitos anos mais tarde me revelaram a profundidadedo presente que me haviam oferecido. Cada um deles entrou em mim de forma tãocompleta que deixou de ser apenas um setting. Tornou-se parte da minha própriapaisagem interior.
Talvez seja por isso queexiste um pequeno mantra que permanece comigo há tantos anos, penduradosilenciosamente na parede do nosso yoga sala | Be your ownGuru. Nunca o compreendi como um convite à independência, nem como umarejeição dos professores, dos mentores, das tradições sagradas ou da sabedoriadaqueles que caminharam antes de nós. Pelo contrário.Sempre o senti como umconvite à relação. Porque todo o verdadeiro mestre acaba inevitavelmente pornos devolver a nós próprios. Toda a cerimónia coloca, em silêncio, a mesmapergunta | Consegues corporizar aquilo que te foi revelado? Conseguespermitir que aquilo que um dia surgiu como um ensinamento exterior se instaletão profundamente nos teus tecidos que deixe de pertencer ao professor e passea pertencer à tua própria experiência?
Talvez esta seja a uniãoque Quíron e Cariclo sempre nos convidaram a contemplar. Não apenas marido emulher. Não apenas o curador e a sua companheira. Mas dois movimentos quecontinuamente se geram um ao outro. O herói e o campo. A herança e o ambiente. Aconsciência e o inconsciente. A acção e a receptividade.
O Yoga fala-nos de Hae Tha. O Taoísmo oferece-nos a linguagem do Yine do Yang. Nenhuma destas tradições nos pede que escolhamos umdos lados. Convidam-nos, antes, a entrar em relação. Porque a ferida, por sisó, não nos liberta. E o campo, por si só, também não transforma. A cura começaquando a ferida encontra finalmente um espaço suficientemente amplo para deixarde precisar de se defender. É aí que o sofrimento começa lentamente a alterar asua natureza. Aquilo que antes era medo transforma-se em discernimento. Aquiloque antes era contracção amadurece em compaixão. Aquilo que antes pareciafragmentado reencontra, pouco a pouco, o seu sentido de pertença. A ferida nãodesaparece. Amadurece. Transforma-se em medicina. Talvez seja precisamente aíque nasce a autenticidade. Na capacidade de permanecermos presentes perantetudo aquilo que somos. Na coragem de sustentar a verdade no corpo sem voltarmosa abandonar-nos. A verdadeira responsabilidade deixa então de ser uma obrigaçãomoral. Passa a ser uma expressão consciente do amor. A disponibilidade parareconhecer os padrões que herdámos, os ambientes que nos moldaram e asadaptações inconscientes que um dia nos protegeram, escolhendo, uma e outravez, participar conscientemente naquilo em que se irão transformar.
Carl Jung escreveu | "Enquantonão tornares o inconsciente consciente, ele dirigirá a tua vida e tuchamar-lhe-ás destino." Talvez seja este o convite que ecoa atravésde todas as tradições de cura, de todos os mitos, de todas as práticascontemplativas e de cada encontro com o mundo vivo. Não para dominar oinconsciente. Nem para o transcender. Mas para lhe trazer luz suficiente paraque deixe de ser destino e se transforme em relação.
Talvez seja isto quesignifica, verdadeiramente, viver entre mundos. Não permanecersuspenso entre a ciência e o mito, entre o corpo e a alma, entre o eu e ooutro, entre o visível e o invisível. Mas reconhecer que sempre fizeram parteda mesma conversa. Quíron recorda-nos que cada ferida encerra em si apossibilidade da sabedoria. Cariclo, a silenciosa ninfa das águas vivas,recorda-nos que essa sabedoria apenas floresce quando existe um campo capaz dea sustentar. Como a água, ela não impõe a sua presença à paisagem. Recebe-a.Recorda-a. E, através da sua presença constante, transforma-a lentamente.
Nascemos na dualidade. Masnão estamos destinados a permanecer divididos por ela. Cada experiênciatorna-se uma nova corrente a fluir nas nossas águas interiores. Cada relaçãodeixa a sua marca subtil. Cada lugar que habitamos passa, silenciosamente, afazer parte do lugar a partir do qual um dia iremos encontrar outro ser humano.
Quando encontramos acoragem para acolher as nossas experiências no coração, validá-las sem ficarmosaprisionados por elas e expressá-las com autenticidade, algo extraordináriocomeça a acontecer. A distância entre quem fomos e quem estamos a tornar-noscomeça, lentamente, a dissolver-se. A devoção deixa então de ser fidelidade auma ideia. Passa a ser fidelidade à verdade mais profunda que conseguimosincarnar. E talvez a alma não desperte por escapar aos campos que a moldaram.
Talvez desperte quando setorna consciente o suficiente para se transformar no campo que um dia iráacolher a jornada de outro. É aí que a ferida deixa de ser um obstáculo. Transforma-se numaoferenda. É aí que a presença deixa de ser algo que procuramos. Transforma-seem algo que somos. E é aí, entre mundos, quedescobrimos que a cura nunca nos pediu que escolhêssemos entre o interior e oexterior, entre o mítico e o científico, entre o visível e o invisível.
Convidava-nos, desdesempre, a recordar que todos pertencem ao mesmo rio.
E que, tal como a água,também nós fomos feitos para receber, transformar e continuar a fluir.



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